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ÁREA CIENTÍFICA DE
ESTUDOS E ANÁLISE |

CASO
CLÍNICO PARA ANÁLISE
Paciente do sexo feminino, 19 anos, com quadro de diarréia com sangue e
muco
Identificação:
Paciente do sexo feminino, 19 anos, estudante, natural do RJ.
Queixa principal
Evacuações diarréicas múltiplas (20 episódios/dia) com
sangue e muco.
História da doença atual
Início do quadro há cerca de 1 mês com diarréia (20
episódios/dia) com sangue e muco, dor abdominal, febre não aferida e
tenesmo. Realizou investigação ambulatorial que revelou Giardia lamblia
no exame parasitológico de fezes e inúmeras ulcerações na mucosa
estendendo-se do reto à flexura hepática no clister opaco. Foi tratada
com metronidazol e iniciado sulfasalazina.
Evoluiu com piora do quadro culminando com internação de
emergência por febre alta, dor abdominal e hipotensão postural, além da
diarréia com sangue. Referia emagrecimento de 8Kg desde o início dos
sintomas. Os exames laboratoriais mostravam anemia (Ht=18%), leucocitose
com desvio para esquerda (leuc= 23000 céls/mm3 com 10% bastões),
albumina baixa (1,8mg/dl) e bioquímica normal. A coprocultura foi
negativa. Ultrassonografia abdominal foi normal a exceção de grande
quantidade de gás nas alças intestinais. Foram iniciados hidratação
venosa, reposição sanguínea, corticóide venoso e uma associação de
ampicilina, amicacina e metronidazol.
Evoluiu com melhora parcial e no 4º dia da internação foi
submetida a uma colonoscopia que revelou um colo de aspecto tubular e
encurtado, apresentando destruição da mucosa associada à presença de
pseudopólipos e de algumas ulcerações profundas, estendendo-se
continuamente do colo sigmóide ao transverso. O reto apresentava mucosa
de aspecto normal com uma única ulceração.
No 6º dia, foi submetida a um trânsito de delgado cujo
laudo foi normal. No dia seguinte, apresentou distensão abdominal.
Radiografia simples de abdome revelou distensão colônica, especialmente
na porção ascendente. Hemograma mostrava Ht de 20% e 6000 leucócitos/mm3
com 33% bastões, a bioquímica permanecia normal. As biópsias de colo
mostraram colite ulcerada inespecífica. Os antibióticos foram
substituídos por ceftazidime + metronidazol e iniciada nutrição enteral
elementar. Houve melhora lenta e parcial nos dias subsequentes.
Entretanto, no 15º dia de internação, o quadro voltou a
piorar com vários episódios de enterorragia, febre e maior distensão
colônica. Radiografia simples de abdome revelou distensão colônica
difusa com o colo transverso apresentando 6 cm de diâmetro. A paciente
foi transferida para o CTI e evoluiu com parada cardio-respiratória e
óbito.
Considerações sobre o caso clínico
Qual o diagnóstico sindrômico da paciente?
O quadro predominante da paciente é de uma síndrome
diarreica do tipo crônico pela duração acima de 2 semanas. Os três
subtipos principais de diarréia crônica são:
• Osmótica
Esta pode ser causada por algumas drogas e pelos quadros
de malabsorção. A principal característica da malabsorção é a presença
de esteatorréia.
• Secretória
Pode ser causada por toxinas ou agentes infecciosos,
drogas e tumores produtores de hormônios. A principal característica
deste subtipo é a presença de fezes aquosas em grande volume.
• Inflamatória
Neste subtipo há lesão e morte do enterócito,
caracterizando-se pela presença de sangue e muco nas fezes e pela
associação com quadros de toxicidade sistêmica.
Portanto, trata-se de um quadro de diarréia crônica do tipo
inflamatória.
Qual a(s) etiologia(s) provável(eis) para o quadro da paciente?
A etiologia infecciosa deve ser sempre afastada nestes
casos. Compreende vírus tais como o rotavírus, o HIV e condições
associadas a este como o CMV. Dentre as bactérias, podemos citar E.
coli, Shigela, Campilobacter, Clostridium difficile (colite
pseudomembranosa) e ameba. Alguns parasitas como Giardia e
Criptosporidium também podem estar envolvidos nos quadros inflamatórios.
A doença inflamatória intestinal inespecífica compreende
a retocolite ulcerativa (RCU) e a doença de Crohn (DC). Ambas podem ser
responsáveis por quadros de diarréia crônica do tipo inflamatório
associada à dor abdominal e à toxicidade sistêmica.
Dentre outras etiologias podemos citar a diarréia após
alguns quimioterápicos, pós-radioterapia (colite actínica), por alergia
alimentar, colite isquêmica e associada ao uso de drogas.
Neste caso específico, afastada a etiologia infecciosa e
tratada a giardíase, achamos ser o mais provável uma diarréia crônica
por doença inflamatória intestinal inespecífica.
Poderia ser a giardíase a única responsável pelo quadro?
Provavelmente não. Febre e tenesmo são infreqüentes e a
presença de sangue, muco e pus nas fezes são usualmente ausentes na
giardíase. Além disto, o quadro persistiu apesar do tratamento com
metronidazol, droga de escolha para giardíase com uma eficácia de
80-95%.
Qual a investigação necessária para o esclarecimento do caso?
A pesquisa de sangue e leucócitos nas fezes é
desnecessária neste caso, porém, às vezes, pode ser útil para confirmar
o subtipo inflamatório. A pesquisa de ovos e parasitas nas fezes e a
realização de coprocultura são fundamentais para o diagnóstico das
etiologias infecciosas.
Nos últimos tempos, a colonoscopia vem substituindo os
exames contrastados pois, além da maior acurácia no diagnóstico, permite
a avaliação da extensão e da gravidade da doença e possibilita
intervenções terapêuticas como, por exemplo, a dilatação de uma estenose
do colo. Entretanto, em casos moderados a graves, tanto a colonoscopia
quanto os exames baritados estariam contra-indicados pelo risco de
produzir megacolo tóxico ou perfuração. A retossigmoidoscopia com o
cuidado de pequena insuflação de ar seria o procedimento mais adequado
pela gravidade do caso.
Com o agravamento do quadro da paciente, métodos de
imagem como USG e tomografia computadorizada seriam importantes para
descartar complicações supurativas.
Que tipo de doença inflamatória intestinal teria esta paciente?
Não há nenhum achado clínico, endoscópico ou
histopatológico que seguramente diferencie RCU de DC. Além disso, cerca
de 20% dos pacientes apresentam quadro com características compatíveis
com ambas as doenças e são classificados como colite indeterminada. Na
verdade, utilizamos a soma de um conjunto de fatores que sugerem RCU ou
DC (Tabela 1).
Neste caso, a paciente apresenta maior evidência de
retocolite ulcerativa (RCU).
Tabela 1:
diferenciação entre RCU e DC
|
|
RCU |
DC |
|
Quadro clínico |
Dor
abdominal |
ocasional |
freqüente |
|
|
Vômitos |
raro |
freqüente |
|
|
Diarréia |
freqüente |
freqüente |
|
|
Sangue nas
fezes |
comum |
ocasional |
|
|
Tenesmo |
comum |
incomum |
|
|
Perda de
peso |
ocasional |
freqüente |
|
|
Fissura
anal |
incomum |
freqüente |
|
|
Fístula
perianal |
rara |
freqüente |
|
|
Massa
abdominal |
rara |
freqüente |
|
|
Hemorragia |
freqüente |
ocasional |
|
Endoscopia |
|
|
|
|
|
Distribuição |
simétrica |
assimétrica |
|
|
Continuidade |
característica |
excepcional |
|
|
Envolvimento retal |
freqüente |
incomum |
|
|
Envolvimento ileal |
só ileíte
de refluxo |
freqüente |
|
|
Friabilidade |
freqüente |
infreqüente |
|
|
Sangramento |
comum |
infreqüente |
|
|
Úlcera
aftosa |
rara |
freqüente |
|
|
Úlcera
linear |
rara |
freqüente |
|
|
Úlcera
serpiginosa |
rara |
freqüente |
|
|
Úlcera
profunda |
rara |
freqüente |
|
|
"Cobblestones" |
incomum |
freqüente |
|
|
Mucosa em
torno da úlcera |
anormal |
normal |
|
|
Pseudopólipo |
freqüente |
freqüente |
|
Patologia |
|
|
|
|
|
Envolvimento transmural |
ausente |
freqüente |
|
|
Granuloma |
ausente |
presente |
|
|
Agregado
linfóide |
ausente |
presente |
|
|
Depleção
de mucina |
característica |
ocasional |
|
|
Abscesso
de cripta |
comum |
incomum |
Qual a gravidade do caso?
A classificação utilizada para RCU é a de Truelove e
Witts. Esta divide a doença em leve, moderada e grave. Na doença leve, o
paciente apresenta pequeno número de evacuações por dia (< 4) com pouco
sangue e não apresenta sinais sistêmicos. Na doença grave, o paciente
apresenta mais de 6 evacuações por dia com sangue associadas a febre,
taquicardia, anemia e aumento do VHS. Os quadros moderados são
intermediários entre os dois. Portanto, esta paciente preencheu
inicialmente os critérios de doença grave. Podemos ir mais além, a
presença de qualquer sinal sistêmico de toxicidade como desidratação,
hipotensão, distúrbios hidroeletrolíticos e alteração do estado mental,
classifica esta paciente como uma colite fulminante no momento de sua
internação.
Qual a provável história natural desta
paciente?
A evolução do primeiro episódio de RCU depende da
extensão e da gravidade do ataque. No estudo de Sinclair e cols. (1983),
dos pacientes com doença grave, cerca de 40% entraram em remissão,
comparados a 92% na doença leve, 30% necessitaram de tratamento
cirúrgico comparados a 0% na doença leve, 23% morreram comparados a
menos de 2% na doença leve e o restante permaneceu em um curso crônico
contínuo. A taxa cumulativa de colectomia nos pacientes graves alcançou
cerca de 50% ao final do primeiro ano de evolução.
Em relação à extensão da doença, a chance de apresentar
episódios de maior gravidade é muito maior nos pacientes com pancolite
do que nos pacientes com colite do lado esquerdo ou proctite (Watts e
cols., 1966). Outro fator que pode influenciar o curso da RCU é a idade
de apresentação, onde os pacientes jovens tendem a maior recorrência do
que os pacientes mais idosos (Sinclair e cols., 1983).
Portanto o curso predito de uma paciente jovem que inicia
um episódio de RCU grave do tipo fulminante é muito ruim com alta
probabilidade de complicações e cirurgias e alta mortalidade.
Qual a terapêutica mais adequada para o quadro inicial da paciente?
Existe um grande armamentário terapêutico disponível para
as doenças inflamatórias intestinais, compreendendo a sulfasalazina, os
compostos com 5ASA, o corticóide e os imunossupressores. A indicação de
uma droga e a via de administração (endovenosa, oral ou tópica)
dependerá da extensão e da gravidade da doença.
Nos episódios iniciais de uma pancolite aguda com
critérios de doença grave está indicada a corticoterapia oral com
prednisona na dose de 40-60mg/dia. A presença de sinais de toxicidade
sistêmica leva a indicação de internação com início de corticoterapia
venosa. Esta pode ser feita com hidrocortisona 300mg/dia, prednisolona
60-80mg/dia ou metilprednisolona 48-60mg/dia. Os dois últimos têm a
vantagem de uma menor ação mineralocorticóide. Sempre é importante
afastar complicações infecciosas como abscessos e/ou peritonite antes do
início da corticoterapia.
A sulfasalazina e os compostos do 5-ASA não têm papel
importante para a remissão dos quadros graves, não havendo vantagens na
associação. Entretanto, podem ser usados simultaneamente, quando da
retirada do corticóide, pois levam no mínimo 2 semanas para ter ação
terapêutica
Nos casos refratários, a associação de imunossupressores
como a azatioprina e a 6-mercaptopurina estão indicados, entretanto
estes levam cerca de 4 a 6 meses para ter ação terapêutica e
inicialmente devem ser usados concomitantemente ao corticóide. Nos casos
graves refratários ao corticóide, a introdução da ciclosporina venosa na
dose de 4mg/Kg/dia seria a melhor opção por ser o imunossupressor com
tempo de ação mais curto (1 semana).
Os antibióticos não afetam a taxa de remissão, estando
indicados para o tratamento das complicações supurativas.
Como você interpretaria a evolução da
paciente?
O quadro iniciou-se como uma pancolite grave que evoluiu
para a forma fulminante e, posteriormente, se complicou com megacolo
tóxico. Os critérios diagnósticos de megacolo tóxico incluem a evidência
radiográfica de dilatação do colo, a presença de 3 dos 4 critérios
(febre, taquicardia, leucocitose e anemia) e a presença de pelo menos um
sinal de toxicidade (desidratação, hipotensão, alteração do estado
mental e distúrbios hidroeletrolíticos).
Qual a abordagem desta complicação?
A abordagem
geral inclui a reposição hidroeletrolítica e sanguínea e a utilização de
antibióticos de largo espectro. Está indicado o uso de corticoterapia
venosa. Esta abordagem deve ser agressiva, o doente deve ser acompanhado
com radiografias simples de abdome a cada 12/24 horas. A não melhora
clínica e a progressão da distensão do colo em 24/48 horas indicam a
cirurgia de emergência (colectomia) pelo grande risco de perfuração. A
mortalidade da cirurgia antes da perfuração é de 2%, comparada a 44%
após a perfuração do colo.
Fonte: UFFRJ - Universidade Federal
Fluminense do RJ |